Yakuza 0: Director’s Cut | PC

Um clássico moderno revisitado com respeito, estilo e algumas ressalvas.

Poucos jogos conseguiram redefinir a identidade de uma franquia da forma que Yakuza 0 fez. Lançado originalmente como um prólogo para toda a saga Like a Dragon, o jogo não apenas serviu como ponto de entrada ideal para novos jogadores, como também se tornou, para muitos, o melhor capítulo da série. Agora, com Yakuza 0: Director’s Cut, a Ryu Ga Gotoku Studio revisita esse marco com a proposta de oferecer a versão mais completa da experiência. O resultado é um pacote robusto, fiel ao material original, que amplia o conteúdo sem comprometer sua essência, ainda que nem todas as adições tenham o mesmo peso narrativo ou impacto prático

Uma história de origem que continua poderosa

Ambientado no Japão de 1988, em plena bolha econômica, Yakuza 0 acompanha dois protagonistas em momentos cruciais de suas vidas: Kazuma Kiryu, ainda um jovem yakuza tentando provar seu valor dentro do Clã Dojima, e Goro Majima, um homem quebrado, vivendo à margem do submundo enquanto é forçado a administrar um cabaré em Sotenbori. A alternância entre esses dois pontos de vista é um dos maiores trunfos da narrativa, oferecendo ritmos, tons e conflitos distintos que se complementam ao longo da campanha.

A trama principal gira em torno de uma disputa por um pequeno terreno conhecido como “Lote Vazio”, mas rapidamente se transforma em algo muito maior, envolvendo traições, jogos de poder, conflitos internos entre famílias yakuzas e escolhas morais que moldam o futuro de seus personagens. Mesmo para quem já conhece os desdobramentos da série, a história continua impactante, bem escrita e cheia de momentos memoráveis, equilibrando drama pesado com um senso de humanidade raro em jogos do gênero.

O Director’s Cut adiciona novas cenas inéditas, que aprofundam alguns relacionamentos e oferecem mais contexto para certos personagens secundários. Embora essas cenas não alterem significativamente o rumo da história, elas ajudam a enriquecer o universo e servem como pequenos bônus narrativos, especialmente interessantes para quem está conhecendo o jogo pela primeira vez.

Dois protagonistas, múltiplos estilos de jogo

No campo da gameplay, Yakuza 0 continua sendo um dos títulos mais satisfatórios da série. O combate em tempo real é baseado em brigas de rua intensas, com impacto forte, animações exageradas e um sistema de estilos que garante variedade constante. Kiryu e Majima possuem três estilos de luta principais, cada um com propostas bem distintas, além de um quarto estilo desbloqueável mais avançado.

Kiryu alterna entre força bruta, equilíbrio e agressividade extrema, enquanto Majima aposta em velocidade, imprevisibilidade e controle de multidões. Essa diferença não é apenas mecânica, mas narrativa, refletindo perfeitamente a personalidade de cada personagem. O combate pode parecer simples à primeira vista, mas se aprofunda conforme novas habilidades são desbloqueadas, permitindo combos elaborados, finalizações cinematográficas e o uso criativo do cenário.

A progressão se dá por meio de árvores de habilidades, compradas com dinheiro obtido em lutas, missões e atividades paralelas. Essa escolha reforça o tema da era da ostentação dos anos 80, onde dinheiro literalmente compra poder. É um sistema que funciona bem, embora exija certo equilíbrio para não tornar o jogo excessivamente fácil nas etapas finais.

Atividades secundárias que roubam a cena

Se a campanha principal já é excelente, é nas missões secundárias e minijogos que Yakuza 0 realmente se destaca. O jogo oferece uma quantidade absurda de conteúdos opcionais, muitos deles com histórias próprias, personagens excêntricos e situações que transitam entre o hilário e o inesperadamente emocional.

Desde ajudar pessoas comuns em problemas absurdos até se envolver em disputas empresariais, o jogador nunca fica sem algo interessante para fazer. Os minijogos clássicos retornam com força total, incluindo karaokê, boliche, dardos, fliperamas clássicos da SEGA e até mesmo jogos de gestão, como o Clube Sunshine de Majima e o ramo imobiliário de Kiryu. Esses sistemas são tão bem desenvolvidos que poderiam facilmente existir como jogos independentes.

O Director’s Cut mantém todo esse conteúdo intacto, com pequenas melhorias de interface e desempenho, garantindo uma experiência mais fluida nas plataformas atuais.

Red Light Raid e as novas adições

A grande novidade em termos de gameplay é o modo Red Light Raid, uma experiência cooperativa para até quatro jogadores. Nesse modo, os jogadores enfrentam ondas de inimigos em arenas fechadas, escolhendo entre mais de 60 personagens jogáveis de toda a franquia. Cada personagem possui atributos e habilidades próprias, criando uma dinâmica interessante para partidas cooperativas.

Apesar de divertido, o modo é claramente um extra. Ele não se integra à campanha principal e pode parecer repetitivo após algumas sessões. Ainda assim, é um bônus bem-vindo para quem busca mais conteúdo ou quer jogar com amigos, funcionando como uma celebração do legado da série.

Outro destaque é a inclusão de dublagem em inglês, algo que sempre foi um pedido antigo de parte da comunidade. Embora o áudio japonês continue sendo a opção preferida para muitos fãs, a nova dublagem é competente e ajuda a tornar o jogo mais acessível para novos públicos.

Visual, performance e ambientação

Mesmo não sendo um jogo tecnicamente novo, Yakuza 0: Director’s Cut envelheceu muito bem. Os modelos de personagens, animações faciais e direção de arte continuam expressivos, enquanto os cenários urbanos cheios de neon capturam perfeitamente a atmosfera do Japão dos anos 80. Kamurocho e Sotenbori são bairros pequenos em escala, mas incrivelmente densos, cheios de vida, detalhes e personalidade.

A performance nas plataformas atuais é sólida, com tempos de carregamento reduzidos e estabilidade geral. Não se trata de um salto gráfico revolucionário, mas sim de uma versão mais polida e confortável de jogar.

Pontos negativos e decisões questionáveis

Apesar da qualidade inegável, o Director’s Cut não é isento de críticas. A principal delas é a ausência de um upgrade gratuito ou transferência de progresso para quem já possui a versão original. Para jogadores veteranos, isso pode dificultar a decisão de investir novamente no jogo.

Além disso, embora as novas cenas sejam bem-vindas, elas não são suficientes para justificar uma rejogatina completa apenas por esse conteúdo. O modo Red Light Raid, apesar de divertido, carece de profundidade a longo prazo.

Yakuza 0: Director’s Cut

Yakuza 0: Director’s Cut é, acima de tudo, a reafirmação de um clássico moderno. Ele respeita profundamente o material original, adiciona melhorias pontuais e amplia o acesso a novos públicos, sem descaracterizar aquilo que fez o jogo ser tão amado. É uma experiência rica, emocionalmente envolvente e absurdamente divertida, que continua sendo uma das melhores portas de entrada para o universo Like a Dragon.

Para quem nunca jogou, esta é a versão definitiva. Para veteranos, o retorno depende do quanto as adições justificam revisitar uma história já conhecida. Em qualquer dos casos, fica claro que Yakuza 0 continua sendo uma aula de narrativa, design e identidade dentro dos jogos modernos.

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