Theos: Cities of Myth | PC
Review de Theos: Cities of Myth: o sucessor espiritual de Pharaoh vale a pena? Conheça o gameplay, os pontos fortes

Nos primórdios da minha trajetória no mundo dos jogos, lembro-me de quando, ainda pequeno, retornava para casa com um CD ganho em alguma promoção de supermercado. Nele estava contido o jogo Pharaoh, um city builder que, anos depois, descobriria ser um cult classic de dificuldade extrema. Apesar de não conseguir progredir no jogo devido à falta de habilidade e à barreira linguística, lembro-me de que ele havia me cativado muito naquela época. Entretanto, acabou se tornando uma memória distante com o passar dos anos. Para minha surpresa, teria a oportunidade de analisar um sucessor espiritual de Pharaoh e revisitar um gênero de jogos que não explorava desde a adolescência.
Theos: Cities of Myth bebe muito da fonte de jogos como Pharaoh. Afinal, foi desenvolvido pelo estúdio responsável por trazer o remake Pharaoh: A New Era. Entretanto, transforma essa experiência em algo muito mais acessível ao público moderno, mantendo fundamentos básicos de gameplay, como o sistema de divindades, mas sendo muito menos punitivo que seu antecessor. Dessa forma, quebra uma das maiores barreiras para os novos jogadores do gênero: a frustração.

Gameplay
O jogo conta com dois modos de jogo: Adventure e Sandbox. O modo Adventure conta com uma seleção de 6 desafios pré-moldados, com certos objetivos que o jogador precisa cumprir para progredir na história de cada aventura. Em cada cenário, você será desafiado a usar divindades e tipos de recursos diferentes, o que não torna a mesma estratégia eficaz em todos os cenários, trazendo um dinamismo interessante e desafiando o jogador.
Já o modo Sandbox, como o próprio nome diz, é algo mais livre: escolha uma região, escolha uma divindade e tente criar a melhor cidade possível, dando total liberdade ao jogador para testar as mecânicas.
Eu gosto de pensar na gameplay desse jogo como um grande quebra-cabeça que você monta do zero. Tudo na sociedade se encaixa: você começa construindo casas que vão atrair moradores e, a partir daí, terá que suprir as necessidades deles, como acesso à comida, água e segurança.
Essas necessidades vão escalando; você terá que prover mais do que necessidades básicas. O povo clamará por cultura, vinho, azeite, saúde, entre outras coisas. Muitas vezes, você não conseguirá suprir essas necessidades pelo fato de sua região não conter todos os recursos possíveis, o que obriga você a usar a mecânica de troca entre regiões, importando materiais necessários e exportando materiais para a obtenção de lucro.
Além disso, existe a parte de combate. Você pode treinar exércitos com diferentes tipos de unidades, como cavalaria, lanceiros e arqueiros, para saquear ou conquistar novas regiões e transformá-las em colônias, assim obtendo recursos de maneira mais rápida.
O combate pode ser feito de duas maneiras: a automática, na qual o jogo calcula uma porcentagem de vitória e decide com base na probabilidade, ou por meio de um sistema de combate em tempo real, permitindo movimentar essas unidades livremente caso você confie mais na sua habilidade do que no jogo. Mas vale apontar que achei o combate pouco responsivo e bem desinteressante. Talvez não tenha recebido a atenção devida durante o desenvolvimento.
Em meio a isso, você também terá que construir o templo da sua divindade, que demanda materiais caros e muito tempo, mas que, no fim, irá recompensá-lo com vários bônus que vão variar dependendo da divindade.
Assim, você pode adaptar sua cidade para aproveitar ao máximo essas mecânicas, mas não conte com isso sempre, pois sua divindade poderá se irritar com o seu jeito de gerir. Ações como impostos abusivos e moradias com nível baixo podem resultar na perda dos seus bônus e ser a ruína da sua cidade.
Diante de tudo isso, o grande desafio de Theos é conseguir balancear todos esses aspectos sem que a cidade entre em colapso, colocar cada prédio em uma posição estratégica para se beneficiar, maximizar o lucro com materiais excedentes e criar alianças ou rivalidades com outras regiões. Cada detalhe conta para que sua civilização prospere.

Design de som
Essa, infelizmente, é a parte que mais me decepcionou no game. Lembro que as músicas dos antigos city builders eram mais marcantes. Theos conta com uma música extremamente genérica e nada cativante, o que é uma pena. Acho que, em um jogo no qual você passa tanto tempo olhando e analisando, falta algo aos ouvidos que o deixe cantarolando horas após a gameplay.
Mas não é só a música que deixa a desejar: de modo geral, o jogo é muito silencioso. Mesmo com cidades enormes, praticamente não ouvimos os sons que deveriam compor o cotidiano de uma civilização. Levando em consideração que alguns clássicos dos anos 90 contavam até mesmo com dublagem, essa ausência acaba sendo ainda mais perceptível. Gostaria de ouvir os sons dos teatros, os soldados treinando nas barracas e o barulho das bigornas nas fornalhas. Infelizmente, os poucos efeitos sonoros presentes no jogo passam quase despercebidos, deixando as cidades com uma sensação de vazio que contrasta com toda a vida que deveriam transmitir.
Direção de arte
Um colírio para os olhos! O jogo tem um traço bem cartunesco, mas é muito bem detalhado e bonito. Ao dar zoom nas construções, você consegue perceber o esmero dos artistas em cada prédio. Chega a ser prazeroso olhar toda a sua metrópole funcionando, e meus elogios se estendem à interface, que, no geral, é muito bonita e sutil.
Isso é um grande desafio para um jogo city builder, devido à quantidade de informações, mas Theos consegue traduzir tudo de maneira que não cansa os olhos. Se eu fosse criticar algo na direção de arte, talvez fosse o design dos cidadãos, que é muito “livro infantil” para o meu gosto, mas eu nem apontaria isso como um ponto negativo.

Veredito
Theos resgata um gênero complicado e nichado e o apresenta de uma maneira reformulada e moderna. É um verdadeiro sucessor espiritual dos city builders cult classics dos anos 90, que poderia ser mais lapidado, especialmente na questão do combate, que seria um ótimo diferencial, mas continua sendo uma experiência digna de ser vivenciada.